O que dizem os críticos...

PEDRO A. H. PAIXÃO
Desenho, a Transparência dos Signos
ARTE
Estes estudos sobre a teoria do desenho, embora rigorosos, não são apenas um mero ensaio técnico, mas uma incursão ilustrada sobre o «desenhável» (do desenho da infância à «ciência» de desenhar), num percurso de transparência e magia que conduz o leitor a Aristóteles e a Dante («Vita Nuova»), assim como à arte renascentista, para afirmar o desenho como «a anunciação de uma terra ou matéria que eternamente, em nós, nos espera»
In Expresso/ Actual, 13.06.2008, pp. 44

DISCIPLINA SEM NOME
"Três livros dedicados a uma "disciplina sem nome".
Pedro A. H. Paixão é o responsável por uma nova colecção de ensaios, editada pela Assírio & Alvim, com o apoio da Fundação Calouste Gulbenkian e da fundação carmona e costa, que coloca o desenho enquanto paradigma de pensamento, motor de reflexões variadas sobre a nossa relação com o mundo. Cruzam-se perspectivas filosóficas, históricas, metodológicas, que atribuem ao desenho um valor e uma configuração primordial na história do pensamento. Um paradigma a considerar. Ficamos a aguardar os próximos volumes."
in L+arte, pp. 89, Junho 2008

DENTRO E FORA DE CASA
"Na fundação carmona e costa, "Moradas" reúne os trabalhos de quatro artistas em torno do pensamento sobre o acto de habitar. Há uma história que é contada em jeito de introdução. A artista Ana Vieira ofereceu à filha da escultora Catarina Câmara Pereira uma casa de bonecas. A partir daqui, com a participação também de Fernanda Fragateiro e Fernando Brízio, constitui-se um grupo suficientemente heterogéneo para produzir uma colectiva com interesse, sempre tendo como base o desenho como é hábito nas exposições desta instituição.
As peças de Catarina Câmara Pereira reproduzem com varetas de metal o desenho da casa de bonecas, preenchendo-o pontualmente com tecido de nylon esticado. Este tecido, que serve também para fabricar os "collants" femininos, cria associações entre o desenho da casa e o corpo, associação que reforça a imagem metafórica mais comum da habitação como prolongamento do eu. Alguns desenhos estão suspensos graças a balões negros, o que permite uma leitura mais poética desta peça, que não ocupa um espaço fechado dentro das salas de exposição, já que esses balões interferem também com a obra de uma outra artista, Fernanda Fragateiro.
Esta desenvolveu para aqui um tipo de peças da sua série mais recente, feitas por pequenas cavilhas formando uma espécie de biombos. O biombo, espécie de parede móvel que cria divisões efémeras no espaço, permite uma leitura menos centrada no conceito de casa como projecção da intimidade, e mais focada no pensamento sobre o espaço: neste caso, o espaço da morada, mas também o espaço expositivo, na descendência directa de obras como as de Robert Morris, por exemplo. Esta peça é aquela que prefere com mais evidência uma abordagem mais generalizada do espaço.
Fernando Brízio, de quem se conhece a prática continuada do design, apresenta um trabalho surpreendente pela inventividade que demonstra e pela capacidade de conjugar o desenho com a reflexão sobre o espaço fechado da casa: uma porta corrediça com bastões de grafite cravados vai desenhando, à medida que abre e fecha, um desenho contínuo sobre uma parede falsa. Há também um dispositivo feito com carimbos que, cada vez que se encerra, imprime uma palavra na superfície da parede onde bate. Ou seja, Brízio, servindo-se de objectos e estruturas comuns no dia a dia de uma casa, convoca o tempo para realizar a obra, um elemento que geralmente está ausente de modo explícito das disciplinas artísticas tradicionais.
Finalmente, Ana Vieira também convoca o tempo, mas sob a forma de memória. A sua peça reproduz tridimensionalmente a representação espelhada da casa onde viveu a infância. Há depois objectos pendurados na parede da sala, que se assemelham aos móveis que a artista conheceu, mas esvaziados da sua materialidade física, como sacos – ou balões – que perderam a forma. Este vazio encontra evidentemente a sua correspondência na peça de Câmara Pereira, onde o hélio dos balões permitia que a casa flutuasse. Esta última peça, de Ana Vieira, é também a mais melancólica, aquela que permite maiores associações (parte da casa representada é em espelho, o que abre a imagem para espaços que não são unicamente os das peças), e a que possui, por isso, maior riqueza de significado.
Luísa Soares de Oliveira in Ípsilon/Público, 14.03.2008